35.00€

OS PORTUGUESES NO TIBETE - Os Primeiros Relatos dos Jesuítas, 1624-1635 - Estudo Histórico Hugues Didier

OS PORTUGUESES NO TIBETE      -    Os Primeiros Relatos dos Jesuítas, 1624-1635       -    Estudo Histórico Hugues Didier

Os portugueses no Tibete : os primeiros relatos dos jesuítas, 1624-1635 / estudo histórico Hugues Didier ; coord. e fixação dos textos da ed. port. Paulo Lopes Matos ; trad. Lourdes Júdice

 
AUTOR(ES): Didier, Hugues, compil.; Matos, Paulo Lopes, 1974-, ed. lit.; Júdice, Maria de Lurdes, trad.

EDIÇÃO: 1a ed

PUBLICAÇÃO: Lisboa : Comissão Nac. para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000

DESCR. FÍSICA: 287, [2] p. : il. ; 24 cm

COLECÇÃO: Outras margens

Nota:

Tibete, o último destino dos Descobrimentos?
«Os textos que se seguem relatam a descoberta do Tibete pelos europeus. É certo que o mundo ocidental já dispunha de informações mais ou menos falsas sobre o mais misterioso país da Ásia, antes da viagem e estabelecimento de António Andrade e outros jesuítas portugueses no reino de Gu-ge (Tibete Ocidental) e também no de Utsang (Tibete Central), no início do século XVII. Já tinham ocorrido encontros acidentais entre lamas e membros da Igreja romana, como o descrito por Guillaume de Rubrouck, em 1253-1254. Mas nunca nenhum viajante vindo da Europa tinha atravessado os colos dos Himalaias ou posto os pés no Tecto do Mundo . O mesmo não acontecia com os mercadores ou peregrinos chineses, indianos ou muçulmanos que foram, aliás, os percursores das duas equipas de portugueses particularmente destemidos que se lançaram ao assalto da Terra das Neves, a primeira a partir de Agrã e da corte do Grande Mogol, e a segunda a partir de Bengala.
A epopeia marítima de Portugal inspirou uma obra incomparável na Literatura dos tempos modernos, Os Lusíadas, de Luís de Camões. Esta obra, a única epopeia verdadeiramente conseguida nesta época, recordemos La Franciade, de Ronsard…, teria sido impossível sem a existência de uma ampla literatura portuguesa da navegação e descoberta marítima. Ela confirma a ideia de uma nação portuguesa feita de marinheiros ou inseparável da água salgada. Mas ignora-se com frequência que estes Argonautas também abandonaram os seus navios, embrenhando-se nas massas continentais, a pé, a cavalo e até de camelo. O Brasil por um lado e, por outro, a exploração dos corações quentes ou gelados da Ásia, da China continental e sobretudo dos grandes espaços muçulmanos ou submetidos ao islão, Império otomano, Irão safévida, Afeganistão e Índia do Grande Mogol, provam que os portugueses não recearam afastar-se dos mares. À excepção de minúsculos espaços insulares ou costeiros, não houve conquista nem bandeirantes no Oriente. A audácia lusitana nas terras muçulmanas da Ásia e particularmente no Tibete, apenas acessível a partir da Índia dominada pelo islão, talvez não tenha sido menor que a demonstrada nas vagas.
No entanto, ela não inspirou epopeias: não podiam existir duas, uma para o mar e outra para a terra, sendo a segunda o prolongamento da primeira. Mas os homens cujas explorações este livro descreve tinham consciência de nela participarem, como Francisco Azevedo, em 1630, e em plenos Himalaias, recordando de súbito Camões, o nosso poeta, e particularmente um verso de Os Lusíadas que evoca a clara nascente do Ganges, onde se supõe que os habitantes vivem do perfume das flores que brotam
dessa nascente. A estada de um punhado de jesuítas portugueses no Tibete, de 1624 a 1635, prosseguida esporadicamente até 1640, e cujas obras foram retomadas em 1715 por Ippolito Desideri, inscreve-se num duplo contexto: o do Extremo-Oriente, onde a ordem fundada por Inácio de Loiola tentou asiatizar o cristianismo (Matteo Ricci, Roberto de Nobili), e o do mundo muçulmano, onde ela estava também empenhada: no Médio-Oriente das minorias cristãs mais ou menos afastadas da comunhão com Roma, do Líbano à Abissínia e à Índia do Norte (ou Grande Mogol), onde diversas circunstâncias excepcionais, devidas essencialmente às ambições político-religiosas de Akbar (1542-1605), permitiram um diálogo islâmico-cristão pouco usual e singular.
Embora não contenham informações significativamente falsas, estes textos apresentam distorções por vezes espantosas relativamente à ideia do budismo lamaico que nos dão, hoje em dia, as obras modernas. O nome de Chescamoni, Sakyamuni, apareceu pela primeira vez em 1627, sob a pena de Estêvão Cacela, um padre pertencente à província jesuíta de Cochim (e não à de Goa), e livre da autoridade ou influência de Andrade pois residia em Utsang, no Tibete central, e não no Gu-ge. Foi a incapacidade ou a recusa de ver Buda e o budismo na terra dos lamas que impediu o primeiro visitante europeu do Tibete de se tornar o fundador da tibetologia moderna. Mais do que a Cacela ou Cabral, afinal mais lúcidos em Utsang do que os padres de Tsaparang no Gu-ge, o mérito de ter fundado esta ciência coube ao jesuíta italiano Ippolito Desideri (1684-1733). Estes textos, interessantes, vivos, coloridos e cheios de detalhes concretos, acabam por ser mais impressionistas que realistas. Situados a montante da tibetologia moderna, fazem corpo com o imaginário, a lenda, ou melhor, as lendas cristãs e muçulmanas acerca do Tibete, solidárias para fazerem do Buda e do budismo um ponto cego, ou seja, uma alteração paganizante do seu próprio monoteísmo, uma deformação de si próprio.
O Tibete visitado em 1624-1641 é, em sentido próprio e figurado, o ponto mais alto da exploração do mundo pelos portugueses. Estes tinham convivido bastante com os muçulmanos em Ceuta, em Moçambique, em Melinde e nas costas do Oceano Índico, de Ormuz às Malucas, por terem em todo o lado procurado o que, na sua opinião, o islão escondia e não permitia atingir: além das especiarias, cristandades perdidas, isoladas, exóticas, como se pode inferir das palavras de Vasco da Gama: Vimos buscar cristãos e especiarias. Na origem de todas estas expedições, primeiro marítimas e depois terrestres, esteve sempre o mesmo desejo, quase sempre e por todo o lado frustrado mas sempre renascido, de encontrar longe, no sudeste, no nordeste ou a leste do mundo muçulmano, uma espécie de duplo exótico da cristandade latina.
Andrade gostaria, tal como no início acreditou, que os tibetanos fossem cristãos, como uma parte dos indianos de Malabar, os abissínios ou os arménios. Como pensara Góis alguns anos antes, ao atravessar o reino de Kasgar (Xinjiang). E também Cacela e Cabral procuraram na Ásia central, e nomeadamente no Tibete, onze anos depois do fracasso de Góis, o caminho para o Cataio, identificado desta vez como o Shambala (Sam bha lai) dos relatos dos lamas.
O imaginário europeu e o imaginário tibetano também se misturavam. Parece que só o sonho podia engendrar o dinamismo psicológico necessário ao estudo de realidades longínquas ou pouco acessíveis. Mas uma vez atingidas estas, depois de desbravados os furores dos oceanos ou as encostas geladas dos Himalaias, o sonho tinha que debater-se ferozmente contra a decepção. Tinham que existir restos de cristianismo na seita dos lamas, ou então o Cataio continuava ainda por descobrir, para lá das montanhas e dos desertos da Ásia».
In Hugues Didier, Os Portugueses no Tibete, Os Primeiros Relatos dos Jesuítas (1624-1635), Coordenação da edição portuguesa por Paulo Lopes Matos.
Comentários

Pesquisa Rápida
 Pesquisa Avançada
Informação de Autor
Outros Autores
Partilhar Artigo
Partilhar por E-Mail
Partilhar no Facebook Partilhar no Twitter
osCommerce