A EMBAIXADA MÁRTIR
Benjamim Videira Pires, S.J.
PUBLICAÇÃO: Macau : Instituto Cultural, 1988
DESCR. FÍSICA: Br.;166 p., [20] p. il. : il. ; 22 cm
NOTA:
A fixação dos portugueses em Macau que se pensa ter sido pelo ano de 1557, deveu-se em grande parte, não a um interesse directo no comércio com a China, mas decorreu antes da rivalidade existente à época entre a China e o Japão.
De facto, as duas nações estavam de costas voltadas e os portugueses aproveitaram essa oportunidade, para servirem de intermediários no comércio.
Macau passava também a ser uma excelente escala na rota da “grande nau” que anualmente efectuava a viagem entre o Japão e a Índia.
Aliás antes de existirem governadores, quem administrava Macau era precisamente o “capitão da nau da viagem”, como lhe chamavam nesses tempos os cronistas e que o historiador Charles Boxer tão cuidadosamente estudou, nomeadamente no seu livro a “Grande Nau de Amacon”.
Não é de admirar por isso, que os canteiros que fizeram a admirável fachada das ruínas de S. Paulo tenham sido, e poucos saibam, japoneses.
Igualmente japoneses foram os construtores e moradores das casas da Rua da Palha.
Hoje, desses tempos, restam creio que apenas uma, ou duas, que conservam a traça original, junto à embocadura da rua com a escadaria que dá acesso às ruínas.
Portanto nessa época, eram os portugueses que serviam de intermediários entre a China e O Japão, comprando nomeadamente a seda chinesa, com a prata abundantemente extraída das minas do Império do Sol Nascente.
Mas porquê japoneses construtores em Macau.
A razão está explicada neste livro de Benjamim Videira Pires chamado “A Embaixada Mártir”.
Nesta obra, dada à estampa em 1965, embora a edição que tenho aqui seja do Instituto Cultural datada de 1988, o historiador jesuíta relata os tempos conturbados do Japão, à época da unificação do império e da luta entre os “shoguns”, ou seja os grandes senhores da guerra que dividiam o arquipélago nipónico em feudos.
Essa luta apanhou de permeio os portugueses, que acabariam por ser atingidos.
É que, principalmente através dos jesuítas, a religião católica encontrava-se na altura em pleno florescimento e alguns “shoguns” tinham mesmo adoptado o novo credo nas regiões que dominavam.
Esta situação verificava-se principalmente no Sul do país e particularmente em Nagazaqui o grande porto onde os navios portugueses ancoravam.
Na luta pelo predomínio entre os “shoguns”, alguns deles adoptaram mesmo o catolicismo como bandeira política e saíam para a guerra com os estandartes de Cristo, da Virgem e de vários santos em vez das flâmulas militares.
Os que o fizeram porém acabariam por se ver derrotados.
Em consequência, os decretos de proibição da religião católica sucederam-se a partir de 1614 e um conjunto de massacres contra cristãos foi tendo lugar nas décadas subsequentes, cada um mais sangrento que o seguinte.
Tudo isto concorreu para que o comércio de Portugal com o Japão conhecesse um fim dramático com o encerramento dos Portos, a fuga dos comerciantes, soldados, marinheiros, e também dos japoneses convertidos.
Já depois do fim das relações entre Portugal e o Japão, Macau fez ainda uma tentativa de reabrir o comércio com o Império do Sol Nascente que tinha cessado e arruinado, por isso, a cidade.
É dessa tentativa que Benjamim Videira Pires nos fala em a Embaixada Mártir.
Uma tentativa fracassada que terminou em mais um massacre, ou seja o de toda a embaixada enviada por Macau, trucidada em Nagazaqui.
Resta lembrar quem foi o autor desta monografia.
O padre jesuíta Benjamim Videira Pires nasceu em Torre de D. Chama, Mirandela, em 1916 e ali faleceu, em Janeiro de 1999.
A maior parte da sua vida viveu-a aqui em Macau.
Exactamente meio século.
Licenciado em teologia pela universidade Cartuja, foi ordenado padre em 1945.
Em 1948 embarcou para Macau.
Este homem que viria a notabilizar-se, sobretudo, como historiador, iniciar-se-ia na escrita com uma biografia, intitulada “Carminda”, obra dada à estampa no Porto, em 1939, seguindo-se-lhe, já em Macau, a publicação. em 1954, de duas pequenas peças de teatro, “Liberdade de Consciência” e “Fé como Grão de Mostarda”.
Dedicou-se também à poesia, escrevendo nomeadamente “Jardins Suspensos”, publicado em 1955, e “Descobrimentos: Poesias” de 1958.
“Espelho do Mar” encerraria a sua obra poética.
De resto distribuiu colaboração na imprensa local também portuguesa, publicando várias monografias sobre Macau.
Uma obra que merece também referência é “Portugal no Tecto do Mundo”, onde relata a descoberta europeia do Tibete, protagonizada pelo padre Jesuíta, português António de Andrade em 1624.
por João Guedes, jornalista e escritor
in: https://temposdoriente.wordpress.com/2010/06/19/a-embaixada-martir-de-benjamin-videira-pires-sj/