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A QUEDA da ÍNDIA PORTUGUESA - Crónica da Invasão e do Cativeiro * Carlos Alexandre de Morais

A QUEDA da ÍNDIA PORTUGUESA - Crónica da Invasão e do Cativeiro    *   Carlos Alexandre de Morais

A Queda da Índia Portuguesa - Crónica da Invasão e do Cativeiro»

Carlos Alexandre de Morais

Estampa, Lisboa, 1995 (edição revista e aumentada)

Br.; 427 págs (incluindo 39 fotos p/b, 12 mapas e bibliografia); 20,4x14cm

Nota:

16/2/2008   |  Jose Pedro Castanheira
in: Expresso, 9 de Fev

 

Só agora o padre Ferreira da Silva, capelão do campo de concentração de Pondá, foi louvado. 45 anos depois dos acontecimentos, o Estado português louvou finalmente o sacerdote jesuíta Joaquim Ferreira da Silva, com a Medalha Militar de Serviços distintos, grau ouro, com palma.

 

Os acontecimentos reportam-se a 1962 e ao campo de concentração de Pondá, onde estiveram presos durante largos meses cerca de 1750 militares e civis, na sequência da invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana. O episódio em causa foi presenciado pela quase totalidade dos prisioneiros e viria a ser relatado por um dos oficiais que ali esteve detido. Foi no livro ‘A Queda da Índia Portuguesa. Crónica da Invasão e do Cativeiro’ (Estampa), que o coronel Carlos Alexandre de Morais descreveu o sucedido no dia 19 de Março de 1962, e que poderia ter redundado num massacre.

 

Tudo começou com uma tentativa de fuga por parte de três prisioneiros, que procuraram evadir-se no meio do lixo transportado pela camioneta que todos os dias fazia a limpeza do campo. Quando a viatura se preparava para transpor a porta de armas, um furriel — que Carlos de Morais não nomeia —, denunciou a tentativa de fuga ao comando indiano. Dois dos três fugitivos foram imediatamente detidos, mas o terceiro escapuliu, misturando-se com “a multidão de prisioneiros que acorreu ao local”.

 

Ao mesmo tempo, o delator, identificado pelos restantes prisioneiros, teve que ser retirado do campo pelos militares indianos, para evitar um provável linchamento. Um major indiano avisou então que, caso se repetisse uma tentativa de evasão, não hesitaria em fuzilar os seus autores — o que mereceu um protesto de um dos oficiais portugueses mais graduados, invocando a Convenção de Genebra.

O caso parecia sanado, até à chegada do brigadeiro Sagat Singh, comandante-geral dos Campos de Prisioneiros de Goa. Mandou formar os prisioneiros, enquanto montava em seu redor todo um aparato bélico: metralhadoras, bazucas, morteiros. E, em frente da porta de armas, um ameaçador pelotão armado. Foi ainda a quente que o padre Ferreira da Silva descreveu os acontecimentos de que foi o principal protagonista, num artigo publicado na revista ‘Magnificat’, em 1962. Conta o jesuíta (à época, tenente capelão de Pondá) que o brigadeiro “mandou formar os soldados e perguntou se alguém queria castigar o delator.

 

Ao contrário do que esperava, os rapazes responderam em coro: “Todos!” O homem ia indo aos arames. Mandou perguntar se tinham entendido bem. E a resposta foi igual: “Todos!” Manda então preparar o pelotão de fuzilamento e carregar as metralhadoras.

 

Perante o risco iminente de uma carnificina, o ex-missionário saiu da formatura e dirigiu-se ao brigadeiro. “Pedi licença para falar e perguntei-lhe se, como capelão, desejava que dissesse alguma coisa aos homens. Mas a resposta foi seca: “Não! É demasiado tarde! É preciso dar uma lição a todos”. Insisti, pedindo que desse aos homens uma oportunidade. Negou novamente, perguntando se tínhamos sido alguma vez maltratados.

 

Respondi que não, mas que já tínhamos sofrido bastante para merecermos que nos fosse dada uma oportunidade. Disse outro não muito seco e, voltando-se para trás, mandou avançar o pelotão de fuzilamento. Lancei então o último pedido desesperado, convencido da sua inutilidade: ‘Senhor, dê-nos uma oportunidade. É a primeira. Nunca teve razão séria de queixa. Por favor, dê-nos uma oportunidade’. ‘Está bem’ — respondeu — ‘mas diga-lhes que será a última’”. O brigadeiro indiano exigiu então um pedido de desculpas. O sacerdote dirigiu-se aos presos: “Rapazes, o sr. brigadeiro quer ouvir uma palavra de desculpa. Depois de a pedirem em coro, o brigadeiro deu-se por satisfeito. Agradeci, saudei e afastei-me. A tempestade terminara”.

“Salvou-nos de uma desgraça”
 

O coronel Carlos de Morais, no seu livro, não tem dúvidas em dizer que o padre “salvou-nos, certamente, de uma desgraça de consequências imprevisíveis”. No entanto, no inquérito levantado pelas autoridades portuguesas ao comportamento dos militares em Goa, Damão e Diu (logo após a sua libertação), a actuação do capelão não mereceu qualquer menção. E já depois do 25 de Abril, na reanálise do dossiê Goa efectuada pelas instâncias militares, o gesto do jesuíta continuou a ser ignorado.
 

Oficial do círculo mais próximo do general António de Spínola. Carlos de Morais chamou a atenção, no seu livro, datado de 1980, para a injustiça que se cometeu, ao esquecer a intervenção decisiva do jesuíta. Entretanto, o P. Ferreira da Silva faleceu a 9 de Dezembro de 1987.

Gravemente doente, mas inconformado, Carlos Morais dedicou os seus últimos anos de vida a pressionar incessantemente as autoridades militares a fazerem justiça ao capelão de Pondá, bem com a escrever uma curta biografia de Spínola. O coronel viria a falecer em Abril de 2007. Já não assistiu à publicação do seu livro ‘António de Spínola. O Homem’, que a Estampa editou em Setembro último.

 

Como não tomou conhecimento do despacho do ministro da Defesa, Nuno Severiano Teixeira, de 7 de Dezembro de 2007 e publicado no último dia do ‘Diário da República’ do ano passado, em que louva o “extraordinário acto heróico” do capelão, “revelador de raras e notáveis qualidades de abnegação, coragem moral, firmeza de carácter e virtudes militares, dignas de serem apontadas como exemplo, classificando-o como distintíssimo e relevante, do qual resultou honra e lustre para as Forças Armadas Portuguesas”.

 

Fonte: http://www.supergoa.com/pt/read/news_noticia.asp?c_news=951

 

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